No meio da euforia da Copa e depois do Brasil ser eliminado, fiquei cheia de ouvir e ler os mesmos comentários de torcedores comuns, de críticos, jornalistas… parecia até um mantra… Mas hoje ao ler o caderno 2 do Estadão, pude apreciar um artigo do Roberto da Matta, antropólogo fluminense, que gosto bastante. E gostei, principalmente, pela abrangência do texto não se aplicar apenas a um jogo de futebol.
Só alguns trechos:
[…] “As vitórias não pedem explicação; mas as derrotas demandam uma apuração dolorosa. As vitórias, como os grandes presentes, são embrulhos hermeticamente fechados que falam por si mesmos. Mas as derrotas deixa nu os calcanhares: as partes baixas e a retaguarda. A vitória, sempre desejada, é algo esperado - ” Eu não disse que o gol ia sair dessa jogada?” Ela dá direito ao berro que derrete as fronteiras individuais, de classe e de segmento, parindo o mostro das coerções coletivas que, investidas no papel de multidão, turba, coletividade ou torcida envelada consigo mesma, apaixonada pelo que entende como prova de sua incrível capacidade e talento, pode fazer o que quiser para confirmar a sua transitória superioridade. A vitória explode a nosso favor e contra o outro. Já a derrota, fragmentando o nosso ser e confundindo a nossa competência e cabedal, nos leva para dentro da nossa mais sinistra insegurança. Para esse descascar de feridas antigas que são a base de todo ressentimento; o centro das grandes frustações. A vitória produz a bilndagem da união; ela faz surgir os heróis que personificam o melhor de nós mesmos. Já a derrota divide, revelando os traidores - ” desde o início”- não acreditavam em nós e por isso devem ser exemplarmente punidos. Pois a vitória é tempo de vacas gordas; a derrota de bodes expiatórios.
E o bode expiatório encarna as dimensões mais recônditas, a nossa face recalcada. Sendo, pois, a derrota, ressentimento, insegurança e, sobretudo, frustação.[]
Por isso nos revelamos tão estupidamente nacionalistas, culpando abertamente os jogadores mais ricos, cosmopolitas e radicados no exterior pela derrota, como se numa disputa estruturada pelo acaso das opurtunidades, vencer fosse uma questão exclusivamente dependente de aplicação e planejamento.
[…] Outro dado revelado pelo bode da derrota é o tratamento dos jogadores como se eles fossem subordinados, meros instrumentos da vontade popular e nacional que pensa na vitória e no hexa e como se tudo fosse uma questão de campanha publicitária e não de disputa e de jogo.[…]”
É bem verdade que sentimos uma certa apatia dos jogadores brasileiros, mas daí execrá-los já é exagero. O que importa mesmo é que nossa vida continua a mesma com ou sem hexa.