Dói

Arquivado em: Uncategorized — Rachel at 8:12 am on Quinta-feira, Agosto 31, 2006

 Uma das poesias mais bonita que já conheci. Soube que quando Adélia recitou lá em Paraty, na Flip, as pessoas choraram de emoção. Agora em setembro vai fazer 10 anos que perdi meu pai. Parece que foi o tempo de um suspiro. A dor falada é a sentida, sem dúvida.

As Mortes Sucessivas

Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,
cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
´deixa, tá bom assim´.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.

Adélia Prado

Hoje

Arquivado em: Uncategorized — Rachel at 8:14 am on Terça-feira, Agosto 29, 2006

Faz 10 graus aqui em Sampa, um vento gelado cortando o rosto. Passeando pela cidade e entendendo um pouco os paulistanos… nao tem como ser muito extrovertido, animado e outras coisas mais que um dia ensolarado proporciona, onde a brisa passa longe. A elegancia agradece. Nao vou ser injusta…sao pessoas muito educadas e finas.

P.S.: Teclado maluco, desconfigurado.

Dá-me a tua mão

Arquivado em: Uncategorized — Rachel at 9:26 am on Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Dá-me a tua mão: 
Vou agora te contar 
como entrei no inexpressivo 
que sempre foi a minha busca cega e secreta. 
De como entrei 
naquilo que existe entre o número um e o número dois, 
de como vi a linha de mistério e fogo, 
e que é linha sub-reptícia.  

Entre duas notas de música existe uma nota, 
entre dois fatos existe um fato, 
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam 
existe um intervalo de espaço, 
existe um sentir que é entre o sentir 
- nos interstícios da matéria primordial 
está a linha de mistério e fogo 
que é a respiração do mundo, 
e a respiração contínua do mundo 
é aquilo que ouvimos 
e chamamos de silêncio. 

Clarice Lispector 

 

O outro

Arquivado em: Uncategorized — Rachel at 3:31 pm on Sábado, Agosto 19, 2006

Não é tarefa fácil. Penso que o mundo seria bem mais leve se essa prática fosse corriqueira. Colocar-se no lugar do outro. Pensar, sentir, sonhar, sofrer um cadinho que seja no lugar do outro. É generoso e funciona.

Reli, numa crônica, uma passagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, A borboleta preta, bastante interesante para pensar nesse exercício de observar o mundo através dos olhos do outro.

” Brás, entendiado, passando um tempo na Tijuca, fora do Rio, recebeu do pai uma missão: ou se casa ou vira deputado. Mas ele conheceu a filha de Dona Eusébia, Eugênia, uma tentação de 16 anos. No mesmo instante, uma borboleta preta esvoaçou entre eles, assustando-a. Mau presságio?

Ele decidiu voltar para a cidade. Enquanto se preparava para descer, entrou outra borboleta preta no seu quarto, tão negra como a anterior. Ele riu e se lembrou do susto que a menina tivera e da dignidade que soube conservar. A nova borboleta, depois de se esvoaçar muito em torno dele, pousou na sua testa. Ele a sacudiu, e ela foi pousar na vidraça. Sacudida de novo, foi parar em cima de um retrato velho de seu pai. Para Brás, o gesto de mesmo parada mover as asas parecia um desprezo. Ele pegou uma toalha e bateu nela. Não caiu morta de imediato. O corpo ainda torceu, e ela moveu as antenas da cabeça.

Brás incomodado se perguntou por que a mesma não era azul. A reflexão o consolou. Olhando seu cadáver, imaginou-se na pele da mesma. Imaginou ser uma borboleta negra e modesta, sair do mato já almoçada e feliz, numa linda manhã, espairecendo suas borboletices sobre o céu azul, passar pela sua janela, entrar e encontrá-lo. Nunca tinha visto um homem antes. Não sabia o que era um homem. Deu várias voltas em torno dele e viu que se movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então, pensou:”Deve ser o inventor das borboletas.” Com medo, decidiu agradar seu criador e beijá-lo na testa. Foi enxotada, viu o retrato do pai do inventor das borboletas e voou para pedir-lhe misericórdia.”( texto tirado da crônica de Marcelo Rubens Paiva que fez essa adaptação. Vale a pena ler no livro a versão original de Machado de Assis).

Delicadeza

Arquivado em: Uncategorized — Rachel at 4:15 pm on Quarta-feira, Agosto 16, 2006

 

Uma vez li isso em algum lugar.

“De que são feitas as meninas? balas, açúcares e muitas coisas finas”

Achei isso tão lindo. Pelo menos as meninas que convivo, minhas amigas, são assim.

e os meninos?

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