Não é tarefa fácil. Penso que o mundo seria bem mais leve se essa prática fosse corriqueira. Colocar-se no lugar do outro. Pensar, sentir, sonhar, sofrer um cadinho que seja no lugar do outro. É generoso e funciona.
Reli, numa crônica, uma passagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, A borboleta preta, bastante interesante para pensar nesse exercício de observar o mundo através dos olhos do outro.
” Brás, entendiado, passando um tempo na Tijuca, fora do Rio, recebeu do pai uma missão: ou se casa ou vira deputado. Mas ele conheceu a filha de Dona Eusébia, Eugênia, uma tentação de 16 anos. No mesmo instante, uma borboleta preta esvoaçou entre eles, assustando-a. Mau presságio?
Ele decidiu voltar para a cidade. Enquanto se preparava para descer, entrou outra borboleta preta no seu quarto, tão negra como a anterior. Ele riu e se lembrou do susto que a menina tivera e da dignidade que soube conservar. A nova borboleta, depois de se esvoaçar muito em torno dele, pousou na sua testa. Ele a sacudiu, e ela foi pousar na vidraça. Sacudida de novo, foi parar em cima de um retrato velho de seu pai. Para Brás, o gesto de mesmo parada mover as asas parecia um desprezo. Ele pegou uma toalha e bateu nela. Não caiu morta de imediato. O corpo ainda torceu, e ela moveu as antenas da cabeça.
Brás incomodado se perguntou por que a mesma não era azul. A reflexão o consolou. Olhando seu cadáver, imaginou-se na pele da mesma. Imaginou ser uma borboleta negra e modesta, sair do mato já almoçada e feliz, numa linda manhã, espairecendo suas borboletices sobre o céu azul, passar pela sua janela, entrar e encontrá-lo. Nunca tinha visto um homem antes. Não sabia o que era um homem. Deu várias voltas em torno dele e viu que se movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então, pensou:”Deve ser o inventor das borboletas.” Com medo, decidiu agradar seu criador e beijá-lo na testa. Foi enxotada, viu o retrato do pai do inventor das borboletas e voou para pedir-lhe misericórdia.”( texto tirado da crônica de Marcelo Rubens Paiva que fez essa adaptação. Vale a pena ler no livro a versão original de Machado de Assis).